
Quão fraco pode o Homem ser? Quão baixo pode o Homem descer? Quão longe pode o Homem ir para a sua auto-satisfação? Quão subordinado de si próprio pode o Homem ser? Nem sempre nos perguntemos isto. Talvez seja um pensamento que não nos surja diariamente. Mas a verdade, é que de uma forma ou outra, eles estão lá. Estão presentes mesmo sem darmos por isso. Contudo, a maior dúvida que a todos nós surge, é a única à qual não conseguimos responder: Quem somos nós?
Jack vive desesperado por escapar da sua vida monótona. Então conhece Tyler Durden, um carismático vendedor de sabões com uma estranha filosofia. Tyler acredita que a realização pessoal é para os fracos - é a autodestruição que torna a vida merecedora de ser vivida. Pouco depois, Jack e Tyler lutam no parque de estacionamento de um bar, um espectáculo de violência que lhes dá a sensação máxima. Para apresentar a outros homens os prazeres da violência física, Jack e Tyler formam um Clube de Combate secreto que se torna extremamente famoso. Porém, à espera de Jack está uma surpresa chocante que tudo irá mudar...
Uma história alucinante que me deixou boquiaberta do início ao fim. Um filme de 1999, que nos dá a sensação de ser do mês passado. Não o digo somente pelos cenários, pela banda sonora, pelas interpretações… Digo-o porque é um filme que tem qualidade, é um filme que nos deixa colados ao ecrã desde o seu princípio, é um filme com uma história de arrepiar que nos leva a ter pensamentos profundos sobre a nossa existência. Pouco ou nada tem de confuso, muito ou tudo tem de suspense.

Protagonizado por Brad Pitt e Edward Norton, cuja contra protagonização está fascinante, este filme tem muito por onde se pegar. Brad Pitt, ainda com o seu ar jovem, bonito e deveras sensual, apresenta-se aqui com Tyler Durden. Numa interpretação totalmente psicótica, mas descontraída, esta personagem foi-nos muito bem apresentada por este tão bem conhecido actor. Este seu papel, dá-me a crer que foi um dos pontos altos da sua carreira. Expressivo, maníaco, garanhão, idealista, lutador… São dos poucos adjectivos que vêm à cabeça quando penso na qualidade desta interpretação, bem como quando penso da personagem em si. Já de Edward Norton, podemos dizer exactamente o mesmo. Jack é o papel protagonizado por Norton, e de espectacular a soberbo, atrevo-me a dizer que a sua prestação merece a avaliação: soberbo ++. São dois papéis que exigem um certo envolvimento com a personagem, exigem que não se esteja em frente a numerosas câmaras, diante de um painel, simplesmente porque são bons actores. Até pelo contrário, acho que merece envolver certas emoções, especialmente as de raiva que são as mais transmitidas aqui. Voltando ao que interessa, Edward Norton tem aqui uma prestação incrivelmente fascinante. Mostra-se capaz de fazer qualquer papel, porque já este foi um desafio enorme. Temos de facto um bom elenco aqui presente, o que nos leva a dizer que a escolha foi muitíssimo bem feita. Acrescento ainda que temos que dar um grande méritos aos que se encarregaram da caracterização, que consideram transfigurar Jared Letto, e dar um ar de despreocupada, lunática, e meio “junkie” a Helena Bonham Carter, que tem também um forte papel, e, igualmente uma forte prestação.
Para além das interpretações, o que me chamou fortemente à atenção neste filme, foi a banda sonora. Trata-se de um banda sonora instrumental, mas que gradualmente nos revela que o que vai acontecer a seguir é de loucos. É uma banda sonora que nos revela mistério, algumas situações mais de carácter cómico, ou simplesmente não existe dando um fortalecimento às vozes, aos tons de voz, aos ecos, aos sons que rodeiam um determinado local… Foi um forte contributo para a excelência deste filme, e deixou-me totalmente delirada com o mesmo.
E como no cinema tem que haver cenários, convém que sejam bons. E a verdade? É que foram. De tons escuros, os locais mais perturbadores causavam-nos curiosidade, suspense… Este filme passa-se na sua maioria de noite, o que lhe vai dar um toque mais de thriller, bem como um toque de “algo aqui não está correto”. Tem ângulos quase perfeitos, onde as cenas são captadas de uma perspetiva que todos possamos perceber. Bem como tem uns efeitos especiais que petrificantes, brilhantes! O ambiente escuro, tal como estes efeitos espeiais, levam-nos a crer que o mistério se manterá até ao fim do filme, que vingança ao mundo será feita, que não devemos temer a morte e simplesmente aproveitar a vida.
Agora perguntam-se o porquê da minha última frase, e eu respondo. Por causa do argumento. Pois é, uma coisa leva à outra, e no fim leva-nos ao mesmo. De falas intensas, este filme leva-nos a uma certa moral, a que muitos gostam de chamar: carpe diem. Mas não no sentido literal do termo, senão aqui não teria nexo nenhum. Carpe diem no sentido de que um dia todos morremos, e que temos que fazer algo de destaque enquanto vivemos, nem que seja para a nossa própria satisfação. Os diálogos estão muito bem elaborados, e em alguns aspectos leva-nos a um suspense e a uma confusão que nos faz crer saltar para o fim. Nota importante: não o façam.
Um filme que cresce de forma gradual e elaborada, que não nos deixa nenhum pormenor para trás, Clube de Combate é um filme que merece mérito. Falhando apenas, de forma diminuta e pouco visível, no cenário no fim do filme, poucas falhas tem e o interesse é crescente conforme decorre o filme.
Realço que chega a uma determinada altura no filme que podia haver um forte descalabro. Mas não foi o caso. Desenvolve-se de forma decente, e nada perde com as revelações que nele são feitas. Realço ainda, e por fim, que já há algum tempo que não vemos nos cinemas filmes deste género, ou filmes que simplesmente envolvam lutas (exemplo: boxe). Em tempos foram filmes de enorme paixão, garra e que nos davam um espírito de lutador, mas agora parece que são filmes esquecidos na prateleira. É uma realidade um pouco triste, mas é como tudo na vida. Simplesmente há coisas que não se esquecem, tendo em conta que começa a surgir uma certa monotonia temática nos filmes que são, hoje em dia, “best-sellers”.
4,5 estrelas em 5
Realizador: David Fincher
Argumento: Jim Uhls
Elenco: Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter, entre outros.